quarta-feira, 18 de março de 2015

Geografia do poder

Fiquei impressionado com a cobertura pela mídia internacional (AlJazeera, BBC, CBC, RDI...) do ataque terrorista de hoje no museu do Bardo na Tunísia

Fraquíssima.

Me deu a impressão que os chefes de redações não estavam interessados. O atentado nunca chegou a ser a trama principal do dia (pelo contrário); e se não tivesse as imagens fortes de gente correndo...


No entanto, a Tunísia fica do outro lado do mar Mediterrâneo, bem perto da França. Na grande mídia ocidental, o país é presentado como a esperança democrática do Mundo Árabe por causa de sua capacidade política a levar sua revolução pra frente.

Porém, não é suficiente para receber o tratamento que a França ou a Bélgica recebe.


Afinal, o que são milhares de anos de civilização (nos quais se apoia também o Ocidente) se eles não estão expostos no museu do Louvre? 


Nem um massacre no museu do Bardo conseguiu mudar um pouco a trama da mídia internacional. Ela não opera em função do tipo de evento, mas sim em função do PODER atribuído ao lugar no qual o evento acontece.

Os exemplos não faltam!



O drama que vira cobrança

Além disso, um "terrorista islamista" atacando visitantes (entre eles muitos muçulmanos) num grande museu de um país muçulmano, atrapalha um pouco o roteiro da mídia ocidental, não é? 

Entretanto, é possível contornar este contratempo adaptando a trama propagando um sentimento de dúvida sobre a capacidade da Tunísia em se tornar uma "verdadeira" democracia. 

Para a mídia, enquanto um ataque deste tipo une a França, o mesmo faz surgir grandes dúvidas sobre a Tunísia. Na realidade, arrisco dizer com muita tranquilidade que podia ser exatamente o contrário que acontece na realidade. A união francesa não inclui todo mundo, pois uma grande parte da população se torna automaticamente suspeita.

Hoje, o papel da mídia ficou tão claro que quase dava para ouvir o produtor dando instruções no fone de ouvido do/da jornalista.


Geografia do poder

Nada a ver com o conceito desenvolvido pelo geógrafo Raffestin na sua obra do mesmo nome. 

Neste caso, se trata simplesmente do valor simbólico de certos lugares em relação ao poder da mídia internacional dentro de sua apresentação de um roteiro bem montado

Ocupando um espaço considerável, ela decide o que mostrar e como mostrar, produzindo a versão "certa" que chega com muita força.

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