sábado, 10 de janeiro de 2015

#NãoSouCharlie

Faz dois dias que quero reagir de uma forma ou outra para gozar deste valor fundamental e precioso que é liberdade de expressão e escrever: "Não sou Charlie".

Seria simplesmente satírico no extremo, do jeito que o Ocidente gosta, não é? Além disso, tenho também meus problemas com a França...

Todavia, gritar essas três palavras é bem complicado.

Morreu muita gente, de um jeito ridículo e horroroso. Não conheço a obra dos tais de Charlies, mas é óbvio que os dois doentes mentais que atiraram neles apagaram ao mesmo tempo muito talento. Além disso, destruíram várias famílias, o que é ainda mais grave. Nem se fala da pressão sobre o cidadãos franceses com nomes e sobrenomes árabes. Eles realmente não precisavam disso. Conheço o assunto, testemunhei o drama do racismo durante muitos anos.

E o desrespeito ao profeta? Mereciam levar uns tiros para isso?

Sou totalmente contra algumas charges de Charlie Hebdo, mas era o trampo deles, eram ateus (citando Cabu e Wolinsky) e atacavam... (ouvi dizer) todo mundo, gozando do famoso direito de livre expressão de um pais do "primeiro mundo". Porém, em alguns casos, a liberdade de expressão tem seus limites, como no caso do tratamento dado a um elemento extremamente sensível da religião muçulmana no contexto francês.

Os muçulmanos (me desculpem a generalização, sei muito bem da diversidade e também do uso abusivo deste termo) têm sido estigmatizados de um jeito vergonhoso, especialmente desde a queda do "inimigo" soviético, e de uma maneira exponencial a partir dos 11 de setembro.

Nada justifica esses crimes, mas Charlie Hebdo não deixou de participar indiretamente de um mecanismo cruel e extremamente perigoso. Acabou pagando um preço altíssimo.

A França pode ser considerada um dos principais criadores deste mecanismo e o caso da guerra da Argélia foi o resultado trágico do mesmo. Não foi resolvido até hoje (apesar de uns PEQUENOS sinais de progresso).

As raízes do racismo do estado francês vêm de seu passado colonial. Produziu atrocidades como o Code Noir, além de muitas campanhas militares e muitos outros meios de dominação. O apartheid em vigor durante muitos anos na Argélia (considerada território francês pleno até 1962) teve várias formas jurídicas e sociais. 

Vale enfatizar também que para conseguir um Império tão estendido, foi preciso formar uma elite militar, administrativa, política e religiosa capaz de imaginar, planejar e executar o projeto colonial. Sera que este tipo de gente poderosa parou de existir quando o Império caiu? Sera que foi essa gente que pensou e está pensando a República até hoje?

No papel (Constituição), a República considera todo mundo igual. Mas na prática... 

Parece que o estado não aceita, depois de tantos anos de colonialismo e pós-colonialismo, que um Francês possa ser de todas as cores e religiões. Esses cidadãos devem comprovar que são franceses mostrando o comportamento "adequado". Os cidadãos de descendência europeia podem ser Franceses até se não gostam da República, mas os outros correm o risco do castigo da negação se faltar provas de amor. Ou seja, para alguns, nascer na França não garante automaticamente ser Francês. Isto é a fonte do problema. Se só tivesse segregação espacial e socioeconômica, tudo iria acabar melhorando. Teria problemas, sempre tem, mas a coisa toda iria ter pelo menos a possibilidade de evoluir do jeito certo. Só seria uma questão de tempo, de vontade política e de luta. Racismo é o maior obstáculo para que essa possibilidade possa existir. Torna a luta gigantesca.

Infelizmente, o estado francês não entende duas coisas (ou finge que entende, mas não age de acordo):
  • Diversidade é uma vantagem, não um problema
  • Gostando ou não de diversidade. ela É a França

É este ponto que Charlie Hebdo tinha que respeitar e entender melhor. 

O racismo do estado francês, principalmente contra os "Árabes", é um drama para MUITAS famílias. As armas ocidentais e suas tropas de elite (inclusivo francesas) são um outro drama ainda maior, por que mataram e estão matando MILHARES de civis em muitos países, entre eles muitos muçulmanos (muitas vezes para ajudar eles!!!).

Quem são os principais alvos do momento em termo de ação internacional conjunta (estado, mídia e militares)?

Uma das ferramentas para justificar essas ações tem sido estigmatizar uma religião para atingir os países alvos. Internamente, é uma forma de racismo escondido atrás de um laicismo alterado (no caso da França e de um certo partido no Quebec) que tem também suas motivações eleitorais. As provocações de Charlie Hebdo participavam desse processo, intencionalmente ou não. 

Ironicamente (e diabolicamente), quem atirou neles foi exatamente o extremismo paramilitar financiado pelas grandes potências e/ou seus “aliados”, alimentando assim o OUTRO mecanismo violento (terror) que permite o funcionamento do que é hoje chamado ISLAMOFOBIA (que se alimenta do medo gerado pelo terror).

Quem matou os Charlies não foi o religioso (nem o "moderado", nem o "fanático" - oh classificações sutis!!!).

Quem matou os Charlies foram as bombas, o racismo e a precariedade: fatores que produzem pessoas ideais para se tornarem extremistas depois de encontrar um mentor com carisma, permitindo a continuidade do mecanismo cujo gasolina é a existência do terror.

Não sou Charlie porque este processo de Islamofobia é revoltante. Mas não deixo de ter respeito para as vítimas porque que arriscaram a vida em nome de seus ideais. Tem que respeitar também os policiais que morreram. A cara deles foi bem menos divulgada. 

Entretanto, meus últimos pensamentos vão para os reféns que não tinham nada a ver com isso, estando no lugar errado na hora errada, cruzando o caminho de psicopatas, exatamente como os civis que passam na nossas TVs ocidentais por que foram bombardeados.

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