segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Por que votei na Dilma...

Concordo que transição no poder é importante; depois de 12 anos de PT no federal, teria sido interessante. Porém, por falta de opções, mas também por convicção, meu voto foi para a candidata Dilma. 


Consenso

Não sou nem de esquerda, nem de direita. Quero ouvir cada lado se não for muito extremo, como as bancadas da bola e da bala [1]. Entre as pessoas com quem converso, alguns eleitores do PT chegaram a reconhecer que o partido não é perfeito, e que não seria uma catástrofe voltar um pouco para a oposição (mas votaram para o PT, é óbvio). Ponto para eles, mesmo se são muitos os eleitores petistas que juram que tudo está indo muito bem, que o país está nos trilhos da prosperidade. 

Por outro lado, posso entender um indivíduo que quer essa transição. Não gosta do PT, reclama das coisas erradas (ainda tem muitas), votou contra. Legítimo. Todavia, quando escuto eleitores de Aécio, dá impressão que acreditam que tudo o que tem de ruim hoje no Brasil começou com a chegada do PT no poder, e que desde então, nada melhorou e até piorou. Isso me incomoda um pouco, mas mesmo assim, tive (tenho e terei) umas conversas produtivas com alguns eleitores do PSDB (que não são necessariamente tucanos). Ponto para eles, mesmo se são muitos os eleitores tucanos que não querem conversar.

Sera que o eleitor tucano consegue ser auto crítico? Eu duvido, mas reconheço que é difícil julgar, pois não estão no poder (federal) há 12 anos. Como oposição, uma catástrofe. Brasil tem um problema sério neste aspecto. Não tem oposição (se excluir a mídia) e tem o fator PMDB.


Afinal, o que me levou a votar na Dilma?

Recentemente, Fernando Henrique Cardoso destruiu minha tentativa de ouvir o lado tucano depois de sua participação num programa de rádio [2] gravado enquanto o PSDB estava negociando o apoio formal de Marina Silva. Neste momento, ele estava bem presente na campanha de Aécio, e ao meu ver, era importante escutar o que tinha para dizer. 

O sociólogo, renomado mundialmente, culpou uma parte da população brasileira (pobre, do interior, especialmente do norte e do nordeste?) por ser o eleitor determinante no sucesso eleitoral do PT. Isso seria uma novidade, pois segundo ele, a base eleitoral do partido estava tradicionalmente na classe média. Apesar dele tentar falar num tom respeitoso, o conteúdo aponta para o contrário:


1) Insinuou que o nível intelectual do eleitor do PT abaixou porque o eleitorado cresceu muito entre as classes mais baixas 

Talvez tendo consciência que alguém (como eu) poderia chegar a esta conclusão, não deixa de justificar-se. Para FHC, a culpa não é do nível intelectual do eleitor pobre, é da informação que chega até ele, ou melhor, que não chega. Quer dizer que esta massa de pobres dos "grotões" more realmente numas cavernas? Que votam no PT porque não têm informação mesmo ou só Porque têm atração pela cor vermelha ou pelo número 13? Se fossem informados, tomariam decisões melhores, não é isso? 

Qualquer um pode concordar que televisão e rádio são veículos de informações importantes, e o Censo 2010 mostra justamente que estes items chegaram na maioria dos "grotões" do Brasil, o que o ex presidente deve saber muito bem. O cientista (social), que não pode ser muito direto porque iria passar de preconceituoso, não deixou de questionar a inteligência e a consciência política de uma parte da população brasileira que recebe informação sim. Alem do que, o processo de circulação de informação envolve muito mais. 

Um amigo acabou de me contar uma história que exemplifica bem isso. Um dia, a empregada domestica da mãe dele (numa capital do nordeste) voltou todo emocionada da cidadezinha dela (interior do estado). Com 40 anos, ela tinha sido atendida pela primeira vez por um médico. Nada de grave, exame básico, verificação da pressão... Impacto enorme. Teve contato com informações importantíssimas e complexas que um médico traduziu neste ato simples. Se juntaram a outras pequenas melhoras (entre elas, a renda). Tem conta facebook, escreve na sua página que vota na Dilma. 

Ninguém tem o direito de julgá-la. Ela tem muitas informações além de ter consciência política. O valor desses dois elementos não pode ser definido na base da posição social ou geográfica dela. Isto é PRECONCEITO. 


2) Segundo FHC, teria no Brasil dois tipos de pobres: os pobres "iluminados" - bem informados - e os pobres dos "grotões" - mal informados. 

Obviamente, os iluminados votam no PSDB. Entretanto, quando se trate das classes mais altas, FHC não se arrisca em dividi-las em dois grupos (os bem informados versus os mal informados), o que desvenda um terceiro preconceito: 

Pode-se julgar o comportamento do pobre (prática comum no Brasil) com generalizações graves para alguém do nível acadêmico e político dele, mas se limite a esta classe. Pelo menos, poderia analisar um pouco melhor. Mas pra isso, precisaria viajar pelo Brasil, realizar trabalhos de campo...

O preconceito contra os nordestinos que circulou nas redes sociais depois do resultado foi triste para o país, e FHC, sociólogo renomado, contribuiu na sua propagação antes do segundo turno. 

Imaginar o PSDB no poder é preocupante, porque de uma certa forma, legitimaria este grande problema do preconceito, afastando as soluções que estão por vir. 


Essa intervenção foi gravíssima, por que ele deveria mostrar o exemplo. O pior e que o mesmo preconceito já estava sendo propagado em 2006 (comprovado pela capa da Veja n. 1969 abaixo). Oito anos depois, FHC vem falar de "grotões" em vez de reconhecer uma vez por todas que não quis entrar em contato com essa parte da população. 

Só quer o voto a cada quatro anos fazendo nada e sendo preconceituoso? Péssima estratégia! 

O PSDB deveria ir até os lugares que incomodam os tucanos para desenvolver o partido em vez de pagar artistas americanos. Dinheiro bem gasto é mandar a juventude tucana para lá. Parece piada, mas não é.

       

No entanto, podemos refletir um pouco sobre as classes mais altas. 

A obervação de um gráfico simples do Datafolha (que obviamente, tem suas limitações) publicado no site de notícia da Globo [3] mostra que, contrário ao que FHC afirma, teve mais classes envolvidas no eleitorado do PT.


O grupo que ganha entre 2 e 5 salários está totalmente empatado. Estranho, porque segundo FHC, este grupo tinha deixado de votar para o PT. Mereceria uns comentários do sociólogo sobre comportamento eleitoral e informação, pois este grupo de eleitores deve estar entre os mais bem informados. Sera que são mesmo? 

Em relação à mídia, é bom lembrar que o PT não beneficia de favores, pelo contrário. É o que mostra o Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (LEMEP), sediado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Vale conferir [4], já que FHC aponta para a importância da informação na formação de opinião.


O caso da denúncia [5] da Veja nas vésperas do segundo turno oferece uma versão extrema de parcialidade: 

É impressionante como a revista do grupo Abril explica na própria reportagem que ainda não existe provas sobre o que o doleiro Youssef disse no seu depoimento. Ou seja, apuraram sim, mas apesar de não ter elementos básicos para apoiar as acusações de uma matéria deste tipo, optaram mesmo assim para uma grande produção com capa de film de horror. Assim, o jornalismo de uma revista influente que está supostamente lutando para a um pais mais ético tentou aplicar um golpe no PT na justificativa de que um doleiro (pessoa confiáááável!!!) está num processo de delação premiada, e logicamente, só fala coisas que poderão ser comprovadas. Tentativa de golpe na base da lógica Veja. O pior disso tudo e que a rede Globo usou a matéria da revista no Journal Nacional. Nenhum meio de comunicação minimalmente profissional teria usado tal material. Tiro no pé garantido. Entretanto, em 2014 e apesar de seu alto nível técnico, a rede Globo cumpriu seu papel de maior símbolo da PIG e tentou decidir mais uma eleição. Desta vez, o ocorrido se repercutiu nas redes sociais antes e depois (#GolpeNoJN chegou a ser numero 1 no Top Trend WORLWIDE). Falhou. O poder da mídia tradicional tem limites.

Voltando para os gráficos. As curvas de quem ganha entre 5 e 10 salários é relativamente estável, corroborando a base tucana na elite. Todavia, é difícil explicar o que acontece acima de 10 salário. É uma pena que FHC só comenta sobre os "grotões" quando poderia comentar sobre um segmento da sociedade que ele conhece bem melhor, outros tipos de "grotões", porém bem pequena em termos absolutos. 

Efetivamente, olhando para o gráfico que ganha até dois salários mínimos, é evidente que o PT tem uma base fortíssima na base (confere os números do Censo 2010 na tabela abaixo). Porém, não são os pobres dos "grotões" aos quais FHC parece se referir, mas a famosa nova classe média (termo omnipresente na Secretária de assuntos estratégicos), que tem renda familiar per capita [6] entre R$ 291 e R$ 1019.


Este quadro [7] mostra que em 2010, ainda tinha muito para ser feito (e ainda tem). Onde está o Brasil agora? Se tivesse piorado, sera que Dilma teria sido reeleita? Quais serão os resultados do próximo censo? 

Tem que reconhecer os resultados na luta contra a pobreza e tudo mais, mas sera que a nove classe média ficou mais perto de ser uma classe média verdadeira (cujo significado merece ser debatido)? 

O eleitor do PT tem que cobrar constantemente para que o esforço de relações públicas de seu partido não seja mais forte do que o esforço político preciso para melhorar as condições da nova classe média junto as outras camadas sociais que estão abaixo e acima. Entretanto, o esforço pertencia a todos, o maior símbolo disso sendo a educação de base, que não é uma competência federal, mas que o mesmo tem de avaliar, cobrar e quem sabe federalizar [8]. O verdadeiro espaço para mudanças está nos níveis estaduais e municipais, mas tem que andar junto com o projeto nacional de educação que o poder federal deve construir. 


Afinal, o que me levou a não votar no Aécio?

Se queimou com o discurso clássico de político da velha guarda. Prometeu a lua e foi lembrado do estado no qual se encontra Minas Gerais depois de vários governos PSDB. Tem também as alegações sérias, entre as quais o controle da imprensa [9] e o uso duvidoso de seus próprios meios de comunicação [10]. Neste sentido, o episódio dos relatórios [11] do TCE-MG que desapareceram depois do site sair do ar ao serem mencionados pela candidata Dilma não o ajudaram. Foi no mínimo duvidoso. 

Pra mim, o pior de tudo foram as explicações sobre o uso da "super voluntária", irmã Andréa Neves, num cargo altamente estratégico. Ele não vê nada de errado. Como foi que num país do tamanho do Brasil ele não achou nenhum profissional para ocupar este cargo. Iria comandar o executivo de um país continental usando voluntários... de sua família? É isso? Essa, não aguentei.



E a economia?

Sei muito bem que a macroeconomia é um dos principais papéis do governo federal, mas confesso que entendo pouco de economia. Agora, a declaração de apoio formal do economista Bresser-Pereira foi uma verdadeira bomba para firmar minha posição. Recomendo a leitura de seu artigo (crítico) [12] que explica sua decisão.

Vou ser chamado de ingênuo e de romântico, mas pra mim, tem muito mais honestidade, integridade e compromisso com o país na candidata Dilma do que no candidato Aécio. A primeira representa muito mais o povo brasileiro (no sentido de povo mesmo) do que o segundo. Mas só é uma opinião, que tem que ser respeitada, como as outras.

Para concluir, preciso confessar que menti. Não posso votar em nenhum de meus dois países adotivos, Brasil e Canadá. Entretanto, quero declarar: 

"Sou Bretão, nascido no litoral mediterrâneo, detentor de um passaporte europeu, e se pudesse votar, teria votado na Dilma."
    
[1] Bob Fernandes / O eleito ou A eleita terá que negociar com bancadas “da bala” e “da bola”
[2] UOL / PT cresceu nos grotões porque tem voto dos menos informados, diz FHC
[3] G1
[5] Veja
[6] Uma família de cinco pessoas, com a mãe ganhando R$400 por mês e o pai R$600 tem uma renda per capita de R$200.
[7] Fiz este quadro direto no site do IBGE
[8] Federalizar a educação básica é a solução (Cristovam Buarque)
[9] Liberdade, essa palavra.
[10] Folha de SP
[11] Terra notícias
[12] Meu voto em Dilma 

Um comentário:

  1. Parabéns!! Como é bom e refrescante ler alguém não-extremista, que entende ambos os lados e ainda assim se posiciona e defende suas idéias sem agressão. O que mais vimos nessa época de eleições foram pessoas defendendo ferrenhamente seus partidos, como se houvesse um único que tivesse só glórias, e debatendo de uma maneira horrorosa e desrespeitosa, chamando quem votasse no partido oposto de retardado pra baixo. Vergonha alheia. Essa conversa de que quem votou no PT é petralha safado que quer ditadura e é defensor de Cuba já cansou, assim como cansou a conversa ridícula de que todos que votaram no PSDB são a elite branca machista preconceituosa coxinha reacionária. Odeio extremos. Não faço parte de nenhum partido e votei com meu coração, com o que julguei melhor pro meu país.Mais uma vez, parabéns pela sua lucidez!

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